Eneacampeão mundial, dirigente e uma das principais referências do Judô Veterano no Brasil, Cristian Cezário construiu uma trajetória que vai muito além das medalhas. Dentro e fora dos tatames, sua atuação ajudou a moldar a classe veterana como ela é hoje, unindo competitividade, organização e senso coletivo.
Nesta entrevista exclusiva ao Portal Judô Veteranos, Cristian relembra momentos marcantes da sua carreira, compartilha os bastidores da coordenação nacional, analisa o crescimento expressivo da classe no país e projeta os próximos passos do Judô Veterano brasileiro. Um relato inspirador de quem vive o judô como missão, dentro e fora do tatame.
Apresentação e trajetória
JUDÔ VETERANOS: Cristian Cezário, muito obrigado por aceitar nosso convite. Para começar, você poderia se apresentar aos nossos leitores? Quem é Cristian Cezário dentro e fora dos tatames?
Uma pessoa simples, com o objetivo de evoluir sempre e ajudar todo o público veterano a realizar seu sonho esportivo, independentemente de qual seja, fazendo tudo o que está ao meu alcance.
JV: Poderia nos contar como foi sua trajetória no judô que o levou a se tornar Coordenador Nacional de Judô Veterano?
Cristian: O judô está presente em minha vida desde os 7 anos, quando iniciei minha trajetória em um colégio com o sensei Pedro Luís Fernandes. Foi acompanhando ele que conheci o mundo do judô veterano, mesmo antes de me tornar um atleta veterano.
Em 2011, iniciei minha trajetória na classe e me encantei com tudo o que vi. Tornei-me vice-campeão mundial naquele ano e entendi que precisava dar um jeito de oportunizar essa experiência a todos os atletas, pois era fantástica. Desde então, venho me dedicando a evoluir como atleta, como técnico, como dirigente e a conseguir motivar e incentivar todos a irem em busca do seu objetivo ou sonho esportivo, transportando essa vontade para a vida pessoal e profissional.
No meio dessa trajetória, foi criada a Grand Master Judô Brasil, que contribuiu muito com toda a história do judô de veteranos e foi parte muito importante de como a classe está hoje. Com a extinção da GMJB, em parceria com os amigos Argeu e Vinícius, e de um modo informal, seguimos ajudando todos os atletas em suas necessidades e fomos estruturando a classe com a organização de treinamentos estaduais e nacional, criação do ranking nacional, entre outras ações.
Em 2018, recebi o convite da CBJ para fazer parte da Comissão de Veteranos e, no ano seguinte, assumi como coordenador da categoria, função que exerço até hoje.
Com a oficialização da classe de veteranos pela CBJ, o respaldo e a confiança que depositaram em nosso trabalho, e com a ajuda de muitos amigos fiéis, seguimos até hoje com o objetivo de mantê-la ativa, ajudar a todos e manter o Brasil entre os melhores do mundo no judô veterano, dentro e fora dos tatames (técnica e administrativamente).
JV: Ao longo dessa jornada, quais momentos pessoais ou conquistas você considera mais marcantes — seja como atleta veterano ou como gestor da classe?
Cristian: Como atleta, tenho alguns momentos que me marcaram bastante e que foram muito significativos para mim.
O mais importante, por incrível que pareça, foi uma derrota. Em 2012, nos EUA, em um poule com cinco atletas, eu venci o campeão, mas acabei perdendo duas lutas. A última delas foi após estar vencendo por wazari, yuko e dois shidos; levei um juji-gatame e perdi a luta faltando três segundos, passando do primeiro lugar para o quarto colocado e saindo de lá sem medalha. Foi tão frustrante que passei dois anos com a foto daquele pódio — do qual eu não fazia parte — como fundo de tela do meu computador, treinando muito e estudando para que isso nunca mais acontecesse. Até que, em 2014, retornei aos mundiais e venci um campeonato mundial pela primeira vez. Foi o meu momento mais frustrante dentro do esporte, porém o mais motivador para que eu pudesse dar a volta por cima e, em 2025, me tornar eneacampeão mundial.
Como gestor, posso citar nossa conquista no Campeonato Mundial de 2025, na França, quando a delegação brasileira, com 117 atletas, e a francesa, com 976, disputaram o evento. Vencemos o quadro geral de medalhas no masculino e ficamos em segundo lugar no geral (masculino e feminino), seguindo a trajetória de estar entre os melhores do mundo no judô veterano. Essa conquista foi muito significativa para toda a delegação brasileira que nos representou no Mundial e extremamente importante para a continuidade do crescimento da classe.
O crescimento do Judô Veterano no Brasil
JV: O Judô Veterano tem apresentado participação cada vez maior em competições e eventos. Na sua avaliação, o que tem impulsionado esse crescimento tão consistente?
Cristian: Acredito que a evolução da classe passa por alguns fatores primordiais, tais como:
- Oficialização e respaldo da CBJ;
- Busca constante por saúde e longevidade saudável pelos atletas;
- Os atletas veteranos se motivando a realizar seus sonhos, um puxando o outro em busca dos objetivos, fazendo com que ninguém fique para trás;
- A garra absurda que o atleta veterano brasileiro tem, fazendo com que, literalmente, “ninguém segure seus kimonos”;
- A vontade de evoluir dos atletas, tanto no aspecto esportivo quanto pessoal, tornando-os seres evolutivos;
- O espírito de um pelo outro, o “nós por nós”, muito presente na classe, que, quando se une e se motiva, facilita a busca de todos os objetivos;
E, por fim, a chance da continuidade: o se sentir vivo, o bem que estar ativo e com objetivos faz para o corpo e para a mente do indivíduo. Isso, com certeza, faz toda a diferença.
JV: Que papel a coordenação nacional tem desempenhado para promover esse engajamento dos veteranos em eventos estaduais, nacionais e internacionais?
Cristian: A coordenação nacional tem um papel fundamental no trabalho de engajamento de todos, trazendo eventos de qualidade, mostrando uma boa organização e motivação para a participação em campeonatos internacionais e dando todo o suporte para que os coordenadores estaduais, junto às suas federações, invistam na classe e realizem eventos de excelência dentro de seus estados, sejam encontros, treinamentos ou competições. O importante é dar a devida importância à classe e aos seus atletas, que, de todas as formas, já contribuíram tanto para o judô nacional, seja como atletas, professores ou entusiastas, e hoje, de alguma maneira, estão colhendo os frutos de tanta dedicação.
JV: Em competições como o Campeonato Mundial de Veteranos, o Brasil tem conquistado resultados expressivos. De que forma isso influencia a motivação e o reconhecimento da classe veterana?
Cristian: As conquistas do Brasil em campeonatos internacionais motivam demais os atletas em geral. Todos querem fazer parte de uma equipe tão vitoriosa. É muito prazeroso representar o Brasil, estar junto com a delegação, vivenciar um evento internacional, estar na mesma equipe que os melhores do mundo na classe e evoluir como atleta e como pessoa. Viver essa experiência dá uma sensação de pertencimento, e é isso que a classe de veteranos proporciona para todos em suas ações.
JV: De que forma a integração com as coordenações estaduais contribui para alcançar esses números e recordes de participação?
Cristian: O trabalho dos coordenadores estaduais, assim como de todos aqueles que colaboram de modo informal, é de fundamental importância para que a mágica aconteça. Se o trabalho não estiver bem estruturado dentro dos estados, com certeza não irá evoluir em nível nacional e internacional. Esse trabalho coletivo entre coordenações estaduais e coordenação nacional é o que faz com que tenhamos tanto sucesso e contribui muito para o crescimento da classe.
Estruturação e desafios da coordenação
JV: Coordenar uma classe tão ampla e diversa como a dos veteranos certamente tem seus desafios. Quais são os maiores desafios que você e sua equipe enfrentam hoje?
Cristian: Com certeza é um grande desafio, e temos que nos reinventar a cada dia.
Um dos grandes desafios é melhorar a participação feminina nos eventos da classe, tanto nacionais quanto internacionais, entender cada vez mais as especificidades e trazer mais mulheres para participar. Temos um potencial enorme no judô veterano feminino, com atletas que muitas vezes se afastaram por diversos motivos. A ideia é trazê-las de volta, entender, motivar, realizar mais ações específicas — como já estamos fazendo há alguns anos — e ter uma equipe mais homogênea.
JV: Quais pilares orientam a atuação da Coordenação Nacional de Veteranos para manter essa expansão e engajamento?
Cristian: Apesar da veia competitiva que temos, a classe de veteranos não é só competição. Temos três pilares que nos norteiam e que fazem parte do planejamento de todas as nossas ações:
- Ser o país número 1 do mundo no judô de veteranos, esportivamente e administrativamente;
- Valorização dos nossos ícones e de todos aqueles veteranos que dedicaram uma vida ao judô;
- Longevidade saudável e promoção da saúde por meio do esporte (judô), com todos cuidando da saúde física e mental, estando nos tatames, participando de ações e realizando seus exames periódicos.
JV: Como a coordenação equilibra a parte técnica, organizacional e social do veterano — ou seja, manter o espírito competitivo e, ao mesmo tempo, promover qualidade de vida e inclusão?
Cristian: Esses são exatamente nossos pilares de trabalho: qualidade de vida, inclusão, promoção da saúde e competição. Através de nossas ações, contemplamos todo o público veterano, seja ele competidor ou não. O importante é que todos se sintam vivos, ativos e valorizados sempre.
Iniciativas, projetos e o futuro do Judô Veterano
JV: Falando sobre iniciativas e eventos, há algum projeto em andamento que você acredita que será especialmente simbólico para os veteranos em 2026?
Cristian: Após a nossa grande conquista em Paris 2025, a tendência é que cresça cada vez mais a classe.
O treinamento de campo que acontecerá na cidade de Uberlândia de 05 a 08 de fevereiro será um grande evento, temos uma expectativa enorme que este evento seja um marco para o judô de veteranos, esperamos mais de 200 atletas e teremos muitas ações especificas para a valorização de todos.
JV: Em sua visão, qual é a importância da participação de parceiros, marcas e federações estaduais para a continuidade desse trabalho?
Cristian: Sem o apoio das federações nada seria possível, aproveito para agradecer a todos os presidentes de federação que sempre nos recebem muito bem, acreditam no trabalho e investem nisso que acredita. Agradeço muito também a nova gestão da CBJ nas figuras do Presidente Paulo Wanderley e do diretor geral Kenji Saito que acreditaram na continuidade do nosso trabalho e na importância da classe de veteranos e de toda equipe que nos ajudam de modo informal, mas que tem fundamental importância para que tudo de tão certo. Meu muito obrigado a todos.
JV: Na sua visão, de que forma o ICI – Instituto Camaradas Incansáveis se consolidou como uma peça-chave na evolução do Judô Veterano, reunindo liderança, estrutura técnica e um ambiente coletivo que resultou em tantos títulos e participação expressiva em competições nacionais e internacionais?
Cristian: Gostaria de acrescentar a importância da minha academia, o ICI – Instituto Camaradas Incansáveis, neste processo todo.
Desde o nosso kodansha e gestor Rodrigo Motta, nosso professor, técnico e general Bahjet Hayek , os Kodanshas e irmãos Silvio e Tadeu Uehara e os atletas que somam tantos títulos mundiais, tem contribuído muito para que todo este processo motivacional e de títulos tenha tanto sucesso a nível mundial. Desde a sua criação em 2015, vem se tornando peça chave para que tudo de certo, tendo uma quantidade enorme de atletas participando de todos os eventos e campeonatos e cada vez mais se ratificando como a maior academia de judô de veteranos do Mundo.
Planos para 2026
JV: O que podemos esperar da Coordenação Nacional de Judô Veterano em 2026 — em termos de campeonatos, treinamentos, capacitação e eventos internacionais?
Cristian: Teremos em 2026 um grande Campeonato Brasileiro, acredito que o maior de todos os tempos, além do nosso tradicional Treinamento de Campo Nacional, que com certeza quebrará todos os recordes de participação. Iremos em busca de nos manter no topo no Campeonato Mundial e teremos outras grandes ações que serão divulgadas em momento oportuno.
JV: Há metas específicas que o senhor gostaria de compartilhar para 2026 e além?
Cristian: Nossa meta é sempre aumentar cada vez mais o nosso público ativo, promover o reconhecimento e a promoção da saúde. Vamos em busca de tudo isso e, com certeza, continuar realizando sonhos.
JV: Por fim, que mensagem você deixaria para os atletas veteranos que estão começando agora na classe ou que estão pensando em voltar aos tatames?
Cristian: Para os novatos, gostaria de dizer que há espaço para todos e que nunca é tarde demais para começar. Venham conhecer o mundo fantástico dos veteranos. A vida é muito melhor e mais intensa quando nos desafiamos e colocamos objetivos em nossas vidas, sejam eles curtos ou longos.
Para aqueles que pretendem voltar aos tatames ou que ainda estão pensando, participem do nosso Treinamento de Campo, tragam suas famílias, vivenciem novamente esse mundo. A sensação é fantástica e, uma vez que voltarem, não vão querer parar nunca mais. Com certeza, vão se sentir mais vivos e dispostos para todos os outros aspectos da vida.














