Eleita Treinadora do Ano – Veteranos 2025 pela Confederação Panamericana de Judô, a Sensei Rosana Barros reafirma sua trajetória como uma referência no fortalecimento do judô veterano no Espírito Santo e no cenário nacional.
Com quase cinco décadas dedicadas ao tatame, Rosana carrega a herança do saudoso Sensei José de Barros, um dos precursores da modalidade no Espírito Santo, e transforma essa história em ação concreta à frente da coordenação do judô veterano capixaba.
O reconhecimento internacional valoriza não apenas resultados, mas ética, profissionalismo e compromisso com os princípios do professor Jigoro Kano — pilares que sustentam sua atuação na formação humana, no incentivo à permanência no dojô e no fortalecimento institucional do segmento veterano.
Nesta entrevista ao Judô Veteranos, Rosana compartilha sua trajetória, os desafios da coordenação, os avanços do movimento no Espírito Santo e a visão de futuro para um judô veterano cada vez mais estruturado, integrado e reconhecido.
APRESENTAÇÃO E IDENTIDADE NO JUDÔ
JUDÔ VETERANOS: Gostaria que você se apresentasse ao público do Judô Veteranos e contasse um pouco da sua trajetória no judô até assumir a coordenação do segmento veterano no Espírito Santo.
Rosana Barros, iniciei no judô a 47 anos atrás, tendo o meu amado pai como Sensei, o saudoso Sensei José de Barros – um dos precursores do judô aqui no Espírito Santo. Cresci vendo toda a paixão e dedicação do Sensei para a divulgação e fortalecimento do judô, em específico nas terras capixabas. Assim, aprendermos a olhar para o judô não apenas como um esporte, mas também como uma grande ferramenta para engrandecimento do indivíduo praticante, através de suas múltiplas oportunidades. Em 1982 a FEJ promoveu sua primeira competição estadual e como eu já tinha a idade mínima necessária (na época o feminino tinha apenas uma classe de idade, a cima de 16 anos), iniciei então aí a vida como competidora, que durou neste primeiro momento 15 anos. Nesta fase, tive a alegria e honra de representar o estado e o país em várias competições. Retornei para as competições em 2022, nesta maravilha de experiência que é o judô veteranos.
JV: Como você define hoje o papel do dirigente no judô veterano e o que mais a motiva nessa função?
Rosana Barros: Instrumento de motivação e conscientização, assim acredito que se caracteriza o papel de um coordenador, um dirigente para o judô veterano. Incentivar os judocas a não se afastar do dojô e “resgatar” quem não está ativo, seja para o fortalecimento do judô através do repasse de experiencias e conhecimentos ou para o cuidado pessoal, da saúde deste praticante. Se a prática do judô na infância, adolescência e ou juventude pode contribuir para a formação de um adulto equilibrado e produtivo para a sociedade, na fase adulta e de mais idade, o judô contribui para a manutenção da saúde física e mental.
JUDÔ VETERANO NO ESPÍRITO SANTO
JV: Como você avalia o momento atual do judô veterano no Espírito Santo em termos de organização, participação e reconhecimento institucional?
Rosana Barros: O movimento de judô veterano é relativamente novo e aqui no estado, com esta organização de coordenação, acompanha o ritmo dos demais estado, amparado pela federação. Temos uma boa participação de atletas nos encontros mensais e nas competições nacionais e internacionais há sempre a representação capixaba, que se ainda não nos reflete em número totalmente em número, é marcante no pódio.
JV: Quais foram os principais avanços observados desde a criação de ações mais estruturadas voltadas aos judocas veteranos no estado?
Rosana Barros: Toda mudança de hábito e conceito demanda tempo para ser conhecida, fortalecida e se estabilizar. No caso do judô de veteranos esta mudança está sendo bem absorvida e vemos isto nos treinos das academias, onde os “afastados” retornam motivamos pela presença dos amigos da juventude e ou pelo início da prática de novos judocas, já idade adulta, encorajados por verem o dojô com atividades também para os adultos e veteranos. Há também os encontros mensais em conjunto que operam como propulsores neste processo, que além de atletas competidores, busca também motivar para a participação nas atividades das demais coordenações de apoio a federação.
DESAFIOS DA COORDENAÇÃO DE JUDÔ
JV: Quais são hoje os maiores desafios enfrentados na coordenação do judô veterano capixaba, especialmente do ponto de vista administrativo e organizacional?
Rosana Barros: A nível de estadual, o maior desafio hoje é fazer refletir nas competições a participação dos atletas veteranos – em especial os eventos estaduais. Temos uma boa participação nos encontros mensais, que ainda não se concretizam nestas competições. Mas acredito que é um processo que está em andamento. Falando em políticas públicas, ainda falta esta visão que entenda e abrace a importância do movimento Veteranos. De qualquer forma, buscamos promover o reconhecimento público de nossos atletas, até para sensibilizar e criar esta visão de apoio e suporte, considerando o impacto positivo para a sociedade, de suas conquistas – todo exemplo de superação e elevação na qualidade de vida do praticante.
VISÃO DE FUTURO
JV: Quais são as prioridades da coordenação para o fortalecimento do judô veterano nos próximos anos no Espírito Santo?
Rosana Barros: O judô de veteranos já é uma realidade no ES e há três pontos que desejamos trabalhar:
- Incremento na participação de competições;
- Aumento na participação das veteranas nas competições;
- Apoiar de forma direta os trabalhos da coordenação de kata.
Claro, todos com o objetivo final do fortalecimento do judô capixaba.
JV: De que forma a organização em calendário anual e ações contínuas contribuem para dar previsibilidade e credibilidade ao segmento veterano?
Rosana Barros: Indiscutivelmente ter um calendário que sinalize com antecedência a realização de eventos é muito importante para a efetiva participação dos veteranos. Nossa classe, além de todo o planejamento financeiro e logístico (até porque é muito comum o atleta estar acompanhado da família), há também a questão dos exames médicos específicos que fazem parte da preparação dos atletas. Mesmo para os treinos, que são instrumentos motivacionais, ter uma agenda para a realização é de grande valia. Aqui no ES, divulgamos o calendário dos encontros mensais para o ano, já no início de janeiro e todos mês fazemos a divulgação do local específico, com intuito de que todos possam se programar, incentivar os amigos e participar dos treinos.
RECONHECIMENTO INTERNACIONAL — CPJ 2025
JV: A Confederação Panamericana de Judô a elegeu como “Treinadora do Ano – Veteranos 2025”. O que esse reconhecimento continental representa na sua trajetória e para o judô veterano do Espírito Santo?
Rosana Barros: Esta é uma daquelas conquistas que não se consegue medir o valor. O impacto positivo é bem grande e estamos falando de dois pontos principais: o judô para veteranos e a classe feminina. São espaços que precisamos e podemos ocupar. Não se trata de uma conquista pessoal, é o reflexo do apoio, incentivo e confiança de muitos. Indiscutivelmente é um “combustível para continuar trabalhando, treinando, competindo e incentivando os colegas a caminharmos juntos nesta busca por aprendizados e experiencias positivas.
JV: Ao receber esse reconhecimento continental, qual foi o primeiro sentimento que veio ao seu coração e a quem você dedica essa conquista?
Rosana Barros: Foi uma surpresa muito boa, uma nova e honrosa experiência. Uma alegria, recheada de responsabilidades e gratidão. Muitas pessoas passaram em meus pensamentos, por saber o quanto são relevantes na construção deste momento. A relação é grande e vai desde a família, sempais e colegas de treino. Mas tenho que nominar e dedico ao meu amado e saudoso Sensei José de Barros, meu pai. Responsável por me ensinar o caminho apaixonante do judô.
JV: Como essa eleição como Treinadora do Ano – Veteranos impacta o judô veterano do Espírito Santo e motiva os atletas capixabas?
Rosana Barros: Já recebi muitas mensagens de parabéns e sempre ressalto que é uma construção conjunta. Para chegar neste momento, houve muita troca de energia boa e sem dúvida há motivação tende a crescer no grupo. É a ideia do “podemos mais”, se alimenta em conquista assim. Neste momento, estamos realizando uma ação de motivação para as veteranas retornarem aos treinos (publicações na página do @judo_veteranos_es e @judo_femininoes) e vem esta surpresa. É claro que a vontade se eleva e é transmitida para outras classes de idade.
JV: O comunicado da CPJ destaca ética, profissionalismo e compromisso com os valores do professor Jigoro Kano. Como você busca traduzir esses princípios no trabalho desenvolvido com os atletas veteranos?
Rosana Barros: Com simplicidade e presença constante, tentando dar coerência aos convites e encontros que fazemos. O judô é para todos e deve servir para a elevação do indivíduo e trazendo isto para o universo dos veteranos, ressaltamos o cuidado próprio; a busca por crescimento, mas respeitando os limites; a convivência cortes e impulsionadora e porque não dizer uma convivência de resgate e acolhimento.
Quando o exemplo inspira gerações
Depoimento de quem vivencia de perto a liderança da Treinadora Panamericana do Ano – Veteranos 2025
Daniel Cruz | Judô Clube Nippon
(Aluno desde 2020)
A trajetória da Sensei Rosana é marcada por grandes conquistas enquanto atleta, mas acredito que as maiores realizações vieram após esse período. A Sensei Rosana é uma mulher guerreira, carinhosa e extremamente solícita.
Após a pandemia de Covid-19, a academia onde eu e minha família treinávamos fechou, e fomos conhecer o Judô Clube Nippon — academia com mais de 50 anos de tradição, fundada pelo Sensei José de Barros, pai da Sensei. Logo de cara, fomos recebidos de coração aberto por ela. Estreitamos os vínculos e hoje a considero como uma segunda mãe.
Ela sempre desenvolve treinos excelentes, baseados em suas vivências e experiências. Ao mesmo tempo, fomenta o judô competitivo de veteranos, sendo grande incentivadora, sempre mobilizando e encorajando os colegas a participarem.
Essa premiação vem para coroar um trabalho de qualidade — um reconhecimento extremamente merecido.
Mary Helen | Judô Clube Nippon
(Mãe da Sophia)
Sou grata por ter a Sensei Rosana em minha vida, não apenas no judô, mas também pelo apoio na educação da Sophia. Quando comecei a levar minha filha à academia, fui totalmente acolhida por ela.
É uma pessoa que chegou à nossa vida para ajudar. A Sophia é apaixonada pela Sensei Rosana.
Uma pessoa séria, mas ao mesmo tempo acolhedora, educada e brincalhona. Nós amamos a Sensei.
Temos um desejo — e ela sabe qual é: no dia em que a Sophia passar para a faixa preta, queremos que seja a Sensei Rosana quem entregue essa faixa à minha filha.
Nunca esquecerei de tudo o que fez pela Sophia. Desejo que elas estejam sempre juntas, no mesmo propósito do judô.
Lembrando que a Sensei Rosana não é apenas uma sensei — ela é uma amiga.
José Roberto Pedro | Judô Clube Marinho
Conheço a Sensei Rosana há muitos anos, por meio dos eventos de judô do Espírito Santo, nos quais sempre estivemos presentes.
A Sensei Rosana é muito merecedora desse reconhecimento. Sempre foi uma referência para todos nós, pelo belo histórico como atleta, que se mantém até os dias atuais. Na função de coordenadora de veteranos do Espírito Santo, tem se empenhado intensamente para o crescimento e a divulgação de nossa categoria.
Está sempre incentivando a todos, com palavras de motivação capazes de nos fazer superar nossos próprios limites em busca de novas conquistas.
ENCERRAMENTO
JV: Que mensagem você deixaria para judocas veteranos que ainda não estão inseridos nas ações oficiais do judô capixaba?
Rosana Barros: Aqui não há mistério: que venham participar e provar desta energia ímpar que é o judô de veteranos. É muito bom reencontrar os amigos e poder fazer as novas amizades. Participar de uma competição de veteranos é algo difícil de descrever: tem toda a adrenalina de uma competição das demais classes, entretanto o sabor de superação é muito mais amplo. É a constatação do “estou viva”, consegui vencer meus limites… tem que viver a emoção para entender. Então, quem ainda não está engajado, que busque informações, planeje, faça seus exames e não perca tempo. Bora viver o judô de veteranos!
JV: Na sua visão, qual é o legado que o judô veterano pode deixar para as próximas gerações dentro do esporte?
Rosana Barros: Renovação, aqui creio que esta é a palavra chave. É a oportunidade de que não haja uma ruptura no processo de transferência de conhecimento, ao manter os competidores no dojô. No passado, quando o atleta decidia não mais competir, se não seguisse a vida de Sensei, era muito comum afastar-se da prática. Nós nos reinventamos como pessoas ao participar do judô de veteranos e aqui, mostramos para os mais novos como o aprendizado e a evolução no judô é infinito e que pode sim, ser praticado por todos. Antigamente os pais levavam seus filhos para o dojô e hoje, com a possibilidade do judô de veteranos, os pais estão entrando no judô junto com seus filhos, em busca de qualidade de vida, de tempo com qualidade junto aos filhos.
JV: Sempre deixamos um espaço aberto para que você compartilhe algo importante que não tenha sido perguntado, mas que considere relevante para a comunidade do Judô Veteranos.
Rosana Barros: Particularmente, digo que ao me envolver com o judô de veteranos, entendo cada vez mais a paixão que meu amado Sensei nos transmitia pelo judô. No auge dos seus 92 anos, ele mantinha os pensamentos lúcidos e queria promover mais e mais o judô, porque na verdade ele entendia de fato, a grandeza do que é praticar judô, mesmo quando se é veterano. Sempre é tempo de começar uma nova etapa, de realizar sonhos e superar seus limites. Viva o judô de veteranos.





























