A trajetória no judô raramente é apenas esportiva — ela se transforma em um estilo de vida. Para o sensei Freddy Avalos, essa caminhada começou ainda na juventude e atravessou diferentes fases da vida profissional, familiar e competitiva, sempre com o tatame como ponto de equilíbrio.
Policial de carreira, árbitro internacional e atleta da categoria veterana, Freddy reencontrou na divisão Master a chama da competição, consolidando uma história marcada por disciplina, constância e propósito. Nesta entrevista ao Portal Judô Veteranos, ele compartilha reflexões sobre preparação, desafios da categoria, apoio familiar e o verdadeiro legado que deseja deixar na comunidade do judô.
Mais do que medalhas, sua mensagem reforça valores que sustentam o judô veterano: perseverança, união e humanidade.
APRESENTAÇÃO E TRAJETÓRIA
JUDÔ VETERANOS: Sensei Freddy Avalos, poderia se apresentar aos leitores do Portal Judô Veteranos e nos contar um pouco da sua trajetória no judô até chegar à categoria M6?
Saudações cordiais e muito agradecido a vocês e a este portal que reflete a paixão por um esporte tão completo, tanto física quanto psicologicamente, e que forma seres humanos íntegros, tanto na prática esportiva quanto na vida pessoal.
Como antecedente, devo indicar que ainda sou da categoria M5; faltam alguns anos para subir para a M6.
Minha prática esportiva no judô começou aos 12 anos de idade. Atualmente tenho 52 anos. Iniciei no colégio onde estudava, que tinha regime militar e é muito conhecido no Equador, o “Liceo Naval”. Ali começou essa grande paixão pelo judô.
O tempo foi passando até concluir meus estudos secundários, momento em que precisamos tomar decisões importantes. Naquela época, em meu país, o apoio ao atleta não era muito desenvolvido, então tive que escolher entre continuar exclusivamente na prática esportiva ou seguir uma profissão. Optei por ser oficial de polícia.
Mas acredito que coincidências não existem — o destino, de certa forma, já está traçado. Na polícia havia a prática do judô como defesa pessoal, o que me permitiu continuar treinando e representar minha província em competições nacionais.
Tive a oportunidade de treinar durante dois meses em Cuba como atleta selecionado da minha província, até o dia da minha graduação como subtenente de polícia. A vida profissional de um policial no Equador é bastante exigente, com horários difíceis, mas eu procurava me adaptar e utilizar o pouco tempo de descanso para treinar.
Continuei competindo em nível nacional, mesmo com menos tempo de treino, mas com muita vontade. O importante é sentir a ambição de alcançar o primeiro lugar e também aquela dose de nervosismo que envolve uma competição.
Assim seguimos até competir em um Pan-Americano de Artes Marciais realizado no Brasil, em São Paulo, na Polícia Militar, onde tive a oportunidade de estar nesse belo país.
Quando temos uma paixão, queremos permanecer ligados a ela. Por isso decidi ingressar no mundo da arbitragem no judô, até chegar a árbitro FIJ. Também nessa função pude participar de inúmeros torneios em nível sul-americano, pan-americano e mundial.
Até que conheci a categoria Veteranos. Foi ali que reacendeu a chama da competição. Retomei meus treinamentos, conquistei alguns títulos nessa categoria e já participei de dois Campeonatos Mundiais, com o objetivo de alcançar uma medalha — algo que sei que virá com treinamento e foco.
JV: Ao longo dos anos, o que manteve o judô presente de forma constante em sua vida, mesmo diante dos desafios naturais do tempo e da rotina?
Freddy Avalos: Definitivamente o judô se transforma em um estilo de vida. Torna-se tão importante e indispensável quanto trabalhar ou comer. Estar no tatame, suando, caindo, levantando, mas fazendo o que você ama.
Às vezes dizem que quem pratica judô é louco. Mas percebemos que existem muitos “loucos” no mundo que também gostam de estar no tatame — e, no final, todos têm a sensatez de serem bons seres humanos.
DISCIPLINA E CONSTÂNCIA NO TATAME
JV: Sua disciplina e constância são muito admiradas na comunidade veterana. Como construiu essa regularidade nos treinamentos ao longo dos anos?
Freddy Avalos: Buscando tempo para estar no tatame. Quando alguém ama algo, encontra tempo para treinar. No meu país há um ditado que diz: “Quem quer beijar, procura a boca”. No judô, quem quer treinar, encontra o tempo e o lugar para isso.
Tudo é questão de querer e decidir fazer. Muitas vezes sacrificamos tempo, sono e até momentos com a família. Por isso, o ideal é envolver a família — levar os filhos para praticar e viajar com você. Assim se cria uma sinergia entre família, paixão, esporte e, muitas vezes, aventura.
JV: Quais hábitos ou valores do judô considera fundamentais para manter o rendimento competitivo na categoria veterana?
Freddy Avalos: A disciplina é indispensável. Sem disciplina para cumprir metas, não se chega a lugar nenhum. Também responsabilidade e entusiasmo — fazer porque ama, não por obrigação.
Mas sem deixar de lado a ambição de alcançar seus objetivos. E, acima de tudo, provar para si mesmo que ainda pode. Nesta categoria, já não precisamos provar nada a ninguém — apenas a nós mesmos.
EXPERIÊNCIA COMPETITIVA INTERNACIONAL
JV: Competir em Campeonatos Mundiais exige preparação física, mental e logística. Como foi seu processo de preparação?
Freddy Avalos: É como voltar à juventude, quando se treinava com sistema planejado, organizado e com objetivos claros.
Nos dois Mundiais em que participei, busquei meus treinadores para apoiar na preparação física e técnica. Um mês antes do Campeonato Mundial, pedi férias no trabalho para me dedicar a treinar, comer, descansar e organizar toda a logística da viagem.
JV: Contou com apoio ou patrocínio para viabilizar sua participação em Mundiais e outras competições internacionais?
Freddy Avalos: Sim. No meu país existe atualmente um plano de apoio a projetos esportivos, buscando patrocínios para atletas em desenvolvimento e também para veteranos.
Consegui patrocinadores que me apoiaram e aos quais sou muito grato: Terrawa e Avilupe, que me apoiaram em 2024 e 2025 e continuarão me apoiando por mais dois anos.
DESAFIOS E APRENDIZADOS COMO ATLETA M5
JV: Quais são hoje os principais desafios de competir na categoria M5 e o que essa fase lhe ensinou como atleta e como pessoa?
Freddy Avalos: Primeiro, manter a capacidade física e técnica exigida na categoria Veteranos.
Segundo, cuidar-se muito das lesões — nessa idade o corpo exige mais atenção e a recuperação é mais lenta.
Terceiro, demonstrar a si mesmo que ainda podemos lutar e competir no tatame.
Como pessoa, em meio às responsabilidades e desafios da vida adulta, o judô é o melhor antídoto contra o estresse. Treinar e descansar faz com que no dia seguinte você esteja renovado e mais produtivo no trabalho. Além disso, a prática esportiva fortalece o sistema imunológico e ajuda a manter a saúde.
JV: O que muda na forma de competir e viver o judô ao chegar a uma categoria mais experiente como a M5?
Freddy Avalos: Percebemos que as lutas já não são tão dinâmicas. Muitas vezes se baseiam mais na preparação física, sem descuidar da técnica. Estar bem preparado fisicamente faz grande diferença no desempenho.
MENSAGEM FINAL
JV: Que mensagem deixaria aos judocas veteranos que admiram sua trajetória, mas ainda hesitam em competir em alto nível?
Freddy Avalos: A família do judô em nível mundial é exatamente isso: família, união, ajuda, compreensão, felicidade. É recordar, conhecer novas pessoas e fazer amizades pelo mundo.
Tudo é questão de decisão. No começo é difícil — dói até o cabelo — mas depois passa. E você vive feliz, porque fomos trazidos ao mundo para sermos felizes, e nada melhor do que fazer o que amamos.
JV: Como gostaria que sua trajetória fosse lembrada dentro da comunidade do judô veterano?
Freddy Avalos: Sinceramente, não gostaria de ser lembrado pelas medalhas que possa conquistar, mas pela qualidade de ser humano que consegui refletir neste esporte tão nobre. A nobreza é a verdadeira riqueza humana.
JV: Sempre deixamos um espaço para compartilhar algo importante que não foi perguntado, mas que considera relevante para a comunidade do Judô Veteranos.
Freddy Avalos: Todos nós, judocas veteranos, temos uma história para contar. Eu tenho uma muito especial com meu filho. Sempre que compito, procuro levá-lo como meu coach. Ele tem 22 anos e também pratica judô.
É uma alegria imensa vê-lo compartilhar comigo essa paixão. Isso fortaleceu laços de pai e filho que levaremos até o último dia nesta vida, e que continuarão na eternidade através da nossa família.





























