Sandro Almada: judô, legado e a construção do Judô Veterano em Minas Gerais

Com mais de cinco décadas dedicadas ao judô, Sandro Almada construiu uma trajetória marcada pela educação, pela resiliência e pelo compromisso com o desenvolvimento humano dentro e fora do tatame. Professor, gestor, coordenador estadual e competidor ativo, ele representa uma geração que transformou o judô em filosofia de vida.

Nesta entrevista ao Portal Judô Veteranos, Sandro compartilha sua caminhada no judô, os aprendizados acumulados ao longo dos anos, a evolução do Judô Veterano em Minas Gerais e os bastidores da organização do Treinamento de Campo Nacional de Veteranos 2026, em Uberlândia. Uma conversa profunda sobre legado, propósito e construção coletiva no Judô Veterano brasileiro.

APRESENTAÇÃO E IDENTIDADE NO JUDÔ

JUDÔ VETERANOS: Para começarmos, poderia se apresentar aos leitores do Judô Veteranos?
Sandro de Oliveira Almada, Belo Horizonte / MG, faixa preta nidan, professor (desde 2018) e gestor (desde 2025) da Judocon/Barroca, uma escola tradicional de judô fundada há mais de 40 anos pelo Sensei Márcio Silva, Coordenador de Judô Veteranos da FMJ desde 2020 e professor voluntário e criador do Projeto Judô em Citrô (Casa de Etelvina, unidade da Associação Espírita Célia Xavier em Citrolândia/Betim/MG).

JV: Você iniciou no judô em outubro de 1971, somando mais de 50 anos de prática. O que mantém o judô presente na sua vida até hoje?
Sandro Almada: Comecei o judô aos 4 anos, em Divinópolis, levado e apoiado pelo meu pai. Fui atleta dedicado até os 15 anos, quando cheguei à Seleção Mineira para a disputa dos Jogos Escolares Brasileiros.

Depois, praticamente parei com o judô por causa do trabalho (comecei com 13 anos), estudos (cursei técnico em química e depois engenharia metalúrgica), casamento e família. Já com 36 anos, eu queria colocar meu filho (Gabriel, 4 anos) no judô. Assim, incentivado pela esposa (Márcia), voltei a praticar o judô e não parei mais. A minha filha (Rafaela) também, quando tinha 4 anos, pediu para fazer judô.

O judô trabalha com três pilares: a educação física, o mental e o espiritual; só isso já seria suficiente para justificar por que pratico judô. Mas, além de gostar de dar aulas, treinar e competir, considero, de maneira particular, o judô como uma terapia. Para a minha alegria, em 2025, o meu filho voltou a treinar e trouxe sua namorada (quase esposa) e, para aumentar ainda mais essa alegria, minha esposa começou a praticar também.

FORMAÇÃO, CARREIRA E MÚLTIPLAS ÁREAS

JV: Sua trajetória profissional passa pela área técnica, engenharia e pós-graduação, além do judô. Como essas formações contribuíram para sua atuação como professor e coordenador?
Sandro Almada: Com 13 anos (faixa roxa), em Divinópolis, eu comecei a dar aulas numa escolinha infantil (O Pequeno Príncipe), ligada ao Judô Clube Divinópolis. Nascia ali o gosto de repassar aquilo que eu aprendia.

Na engenharia, trabalhei por 32 anos. Quando fui demitido, em 2018, pela empresa multinacional na qual eu trabalhava, a primeira coisa que fiz foi ser voluntário no Hospital Espírita André Luiz (parado eu não ia ficar). Na mesma semana, comecei a dar aula numa escola infantil. Logo em seguida, o Sensei Márcio me convidou a dar aulas na Judocon e um amigo me chamou para ajudá-lo numa consultoria dentro do CEFET/MG. Ali conhecemos dois pesquisadores (um professor e um pós-graduando) e daí surgiu uma startup na área de geopolímeros.

Em 2023, eu precisava tomar uma decisão: investia na startup ou me dedicava ao judô. Um sócio me ajudou a tomar essa decisão. Ele disse: “Sandro, eu queria ver seus olhos brilhando aqui na startup igual quando você fala de judô”. Desde então, passei a me dedicar integralmente ao judô. Sem dúvidas, os aprendizados da vida, seja pessoal ou profissional, ajudam-me a ser o que sou hoje e, amar o que faço, certamente, impulsiona-me a fazer sempre mais e melhor. Onde estamos hoje é fruto das escolhas e dos plantios que fizemos antes.

JV: De que forma a experiência fora do tatame influencia suas decisões dentro do judô?
Sandro Almada: Acredito que sempre foi uma via de mão dupla: o que aprendi no judô (autocontrole, resiliência, superação) me ajudava a tomar decisões nas esferas profissionais e pessoais, enquanto o que aprendi e aprendo fora do dojô (relacionamento, gestão) me ajuda a ser um melhor profissional dentro dele.

PROFESSOR, EDUCADOR E FORMADOR

JV: Desde 2018, você atua como professor de judô infantil e adulto na Judocon Barroca. O que mais te motiva no ensino do judô?
Sandro Almada: Aprender todo dia é o que mais me motiva, pois lidamos com pessoas e “pessoinhas”, e cada um é de um jeito. Então, a gente tem que se adaptar o tempo todo.

JV: Como adaptar o ensino do judô para diferentes faixas etárias, especialmente crianças e veteranos?
Sandro Almada: Primeiramente, é preciso gostar do que se está fazendo e depois buscar entender as necessidades de cada um. Por exemplo, nem todos querem ser competidores; tem aluno que prefere a convivência com os colegas ou se dedicar à filosofia do judô, enquanto outros não querem fazer nem taisô, querem só randori. Muitas vezes, esses diferentes perfis estão numa mesma turma. A gente tem que se preparar e adaptar as aulas para que sejam agradáveis para todos.

JV: Entre tantos cursos e formações, quais conceitos você considera essenciais para o ensino moderno do judô?
Sandro Almada: Não sei se o certo seria dizer “ensino moderno do judô”, mas talvez “ensino do judô nos tempos modernos”. Afinal, o judô só é grande porque não perdeu sua essência, sua filosofia ensinada pelo Shihan Jigoro Kano. Mesmo com mudanças e adaptações nas regras e em algumas técnicas, judô ainda é judô.

O fato é que o judô está deixando de ser meramente artesanal (passado de mestre para discípulo) e sendo também academicista (aprendido nas universidades, grupos de estudos etc.). Afinal, atualmente, há muito mais material acadêmico (dissertações e teses) sobre judô do que antigamente, sem mencionar o vasto material disponível na internet. O importante é manter o vínculo com a tradição do judô.

JUDÔ VETERANO EM MINAS GERAIS

JV: Como você avalia o cenário atual do Judô Veterano em Minas Gerais?
Sandro Almada: Cenário de transição e promissor. De uma maneira geral, éramos uma equipe majoritariamente mais madura (M4 para cima). Gradativamente, estamos crescendo nas classes mais novas (M1 a M3) e, de uma maneira mais modesta, também estamos ampliando nossa equipe feminina. Para exemplificar, nesse último Mundial, em Paris, trouxemos um ouro (Gleysinho, M5) e uma prata (Thaisa, F1).

JV: Quais avanços e desafios você destaca na organização e participação dos atletas veteranos no estado?
Sandro Almada: Essa transição citada anteriormente é o principal destaque, pois, antigamente, o atleta parava logo cedo ou, no máximo, alguns anos após a classe sênior. Até porque não havia motivação para continuar, a não ser que fosse um atleta de elite. Quando voltava, já era bem maduro, acima dos 40 ou 45 anos. Essa primeira fase do Judô Veterano foi de preparar o caminho para que os veteranos mais jovens pudessem ter motivação para continuar.

JV: Qual é o papel da coordenação estadual para manter o crescimento e a qualidade do Judô Veterano?
Sandro Almada: Antes de mais nada, o coordenador tem que ser um líder, resiliente e aglutinador. O objetivo principal da coordenação de veteranos é aumentar o número de judocas veteranos em atividade, visando: (a) melhorar a qualidade de vida, (b) melhorar os resultados nas competições e (c) servir de exemplo para as gerações mais novas.

COMPETIÇÃO E ALTO RENDIMENTO NO JUDÔ VETERANO

JV: Mesmo com uma longa trajetória, você segue ativo em competições nacionais e internacionais. O que te motiva a continuar competindo?
Sandro Almada: O que nos mantém saudáveis física e mentalmente, seja na vida pessoal ou no judô, são projetos. Sempre ter algo para realizar. Cada competição é um projeto novo, com planejamento e treinamento específicos. Somando-se a isso, aquele “friozinho” na barriga, a adrenalina da competição… é tudo muito prazeroso.

JV: Entre suas recentes conquistas, há alguma que tenha significado especial para você?
Sandro Almada: Shihan Jigoro Kano disse: “A única vitória que perdura é a que se conquista sobre a própria ignorância”. Ou seja, na busca de ser uma pessoa melhor, toda oportunidade de aprendizado deve ser valorizada. Assim, toda conquista é importante e faz parte de um todo; conta um pouco da nossa história. No momento, gostaria de ressaltar a conquista do 1º lugar no M6 -66 do Ranking Nacional de Veteranos da CBJ. Estar à frente de atletas melhores do que eu me mostra que todo o esforço para manter o peso, tratar as lesões e continuar treinando vale a pena.

JV: Como equilibrar competição, saúde, ensino e gestão dentro do Judô Veterano?
Sandro Almada: Sem esforço e dedicação, não se tem sucesso; afinal, nada é de graça. Mas o que mantém essa chama acesa é gostar do que se faz.

TREINAMENTO DE CAMPO NACIONAL VETERANOS 2026 - UBERLÂNDIA

JV: Em fevereiro de 2026, Minas Gerais sediará o Treinamento de Campo Nacional de Judô Veteranos, em Uberlândia, entre os dias 05 e 08 de fevereiro. O que representa para o estado receber esse evento?
Sandro Almada: Uma responsabilidade muito grande, pois os três eventos anteriores foram realizados em São Paulo (duas vezes em Pindamonhangaba e uma vez em Mairiporã) e foram de muito sucesso. Acreditamos que essa oportunidade aumentará a visibilidade do judô, principalmente da classe veteranos, no Triângulo Mineiro e em todo o estado de Minas Gerais, e consequentemente trará mais atletas veteranos para esse movimento, deixando um legado de esperança para as novas gerações.

JV: O que os participantes podem esperar desse Treinamento de Campo em termos técnicos, organizacionais e de integração?
Sandro Almada: Estamos nos organizando para fazer o melhor evento de todos. Serão quatro dias de muita intensidade, com cinco treinos, homenagens e premiações aos medalhistas do último Mundial, em Paris, e aos três melhores do ranking de cada classe e categoria, além de palestras e muita interação. O Praia Clube, local do evento, é o maior clube do Brasil, com muitas atrações para os judocas e familiares. O acesso a todas as dependências do clube será gratuito para todo atleta inscrito e mais um acompanhante. Tudo isso com um tempero especial: a simpatia e a receptividade do povo mineiro.

JV: Qual a importância desse tipo de evento para a evolução do Judô Veterano no Brasil?
Sandro Almada: Colocar atletas de todos os cantos do Brasil num mesmo local e hora para trocarem experiências é fantástico. Homenagear e premiar aqueles guerreiros que travam suas lutas diárias, destacam-se no cenário nacional e internacional e ainda levam a bandeira do Brasil e o Judô Brasileiro a serem mais reconhecidos é motivo de muita honra e respeito. Isso fortalece ainda mais a nossa classe.

VISÃO DE FUTURO, LEGADO

JV: Quais são suas perspectivas para o Judô Veterano em Minas Gerais nos próximos anos?
Sandro Almada: Acredito que esse momento de transição pelo qual estamos passando, somado à oportunidade de realizar um grande evento nacional em nosso estado, trará bons frutos para o Judô Veterano Mineiro, como o aumento de participantes tanto em treinamentos quanto em competições.

JV: Como você gostaria que sua contribuição fosse lembrada dentro do Judô Veterano?
Sandro Almada: Ninguém consegue bons resultados sozinho. Se estamos aqui hoje, é porque alguém abriu caminhos antes. Na verdade, somos engrenagens numa grande máquina, onde todas as peças são importantes; a diferença é que algumas são mais visíveis e outras menos.

JV: Que mensagem você deixa para atletas, professores e dirigentes que fazem parte do Judô Veterano?
Sandro Almada: A Federação Mineira de Judô tem um lema: “Juntos somos mais fortes”. Eu gostaria de acrescentar um trecho: “e podemos mais”. Então, é isso: vamos juntos fazer um Judô Mineiro maior, mais forte e melhor.

ENCERRAMENTO

JV: Gostaria de deixar um agradecimento final às pessoas, equipes ou instituições que caminham com você nessa trajetória?
Sandro Almada: Sem citar nomes para não cometer o erro de esquecer alguém, de maneira geral agradeço à minha família, que é meu porto seguro; ao Sensei Márcio e à Judocon, que me acolheram; à Federação Mineira de Judô, que tem nos apoiado cada vez mais; ao Praia Clube e sua equipe, que neste momento estão fazendo a diferença; e aos alunos, colegas de treino e de competição, que são minhas fontes de energia.

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